Primeira fase dos cursos

Coescrita com Inteligência Artificial

Experimentações sobre escrita, autoria e criação em diálogo com modelos de linguagem.

Os cursos de Coescrita com Inteligência Artificial constituem a primeira fase de um percurso de pesquisa e formação iniciado em 2024. A proposta surgiu de experiências pessoais de escrita em diálogo com modelos de linguagem e da necessidade de compreender, de maneira prática e reflexiva, como esses sistemas participam da produção textual.

Desde o início, o objetivo não foi apresentar fórmulas prontas, comandos universais ou atalhos de produtividade. Os encontros foram concebidos como espaços de experimentação coletiva, nos quais cada participante pudesse observar o que acontece quando a escrita deixa de ser uma atividade aparentemente solitária e passa a envolver uma mediação capaz de responder, sugerir, reorganizar e produzir variações.

Ao longo de diferentes edições, o curso foi continuamente atualizado. As mudanças nos modelos, nas interfaces e nas formas de interação foram acompanhadas por novas perguntas sobre autoria, estilo, responsabilidade, criatividade e transparência.

Da experiência pessoal ao curso

Desde 2022, venho experimentando modelos de inteligência artificial em atividades de pesquisa e escrita. A partir de 2023, essa experiência passou a integrar de maneira sistemática o processo de elaboração das minhas colunas sobre cultura, tecnologia e filosofia publicadas no jornal Correio, de Salvador.

Em vez de ocultar essa presença, optei por torná-la visível. Os textos passaram a informar explicitamente que haviam contado com assistência de inteligência artificial. Essa transparência transformou a própria prática em objeto de investigação.

Como organizar uma conversa produtiva com um modelo de linguagem? Em que momentos suas sugestões ajudam a desenvolver uma ideia? Quando suas respostas simplificam, repetem ou desviam o texto? Como preservar a responsabilidade sobre as decisões argumentativas e estilísticas?

Os cursos nasceram desse conjunto de experiências e perguntas. O processo individual de coescrita tornou-se uma prática coletiva de observação, comparação e reflexão.

Questões iniciais

  • O que significa coescrever com uma IA?
  • Como preservar uma voz própria?
  • O que pode ou não ser delegado?
  • Como reconhecer respostas previsíveis?
  • Como registrar o processo de escrita?
  • Como assumir a mediação com transparência?
  • Onde permanece a responsabilidade autoral?

O que chamamos de coescrita

Coescrever com uma inteligência artificial não significa simplesmente solicitar um texto pronto e assiná-lo. A coescrita pode envolver diferentes graus de interação, desde uma revisão pontual até um processo prolongado de organização, contraste, questionamento e transformação do material.

Durante uma coescrita, o modelo pode ajudar a reorganizar ideias dispersas, comparar versões, sugerir estruturas, produzir sínteses preliminares, testar variações estilísticas e identificar problemas de clareza. Também pode cometer erros, inventar informações, reproduzir padrões previsíveis e conduzir o texto para formulações genéricas.

Por isso, a coescrita exige leitura atenta, revisão, recusa, reescrita e curadoria. Em alguns casos, o processo pode tornar-se mais demorado e trabalhoso do que uma escrita realizada sem essa interlocução.

A autoria não desaparece. Ela passa a ser compreendida menos como origem isolada do texto e mais como responsabilidade por um processo mediado: a escolha do tema, a construção do contexto, a seleção das referências, a avaliação das respostas, as decisões estilísticas e a versão final continuam sob responsabilidade de quem escreve.

A coescrita não elimina o autor. Ela torna mais visíveis as mediações que sempre participaram da escrita.

Práticas desenvolvidas nos cursos

Preparação

  • definição da intenção do texto;
  • seleção de referências e materiais;
  • organização do contexto da conversa;
  • elaboração de instruções e critérios;
  • identificação do público e do formato.

Interlocução

  • exploração de ideias e perguntas;
  • comparação entre diferentes respostas;
  • reestruturação de textos;
  • variações de linguagem e estilo;
  • questionamento de respostas previsíveis.

Revisão

  • verificação de informações e referências;
  • eliminação de generalidades;
  • recuperação da voz autoral;
  • registro das principais decisões;
  • responsabilidade pela versão publicada.

Experimentar para compreender

Uma das ideias centrais dos cursos é que não podemos discutir adequadamente as consequências éticas, cognitivas e estéticas da inteligência artificial apenas de maneira abstrata.

A experiência concreta permite reconhecer tanto as possibilidades quanto os limites dos modelos. Ao acompanhar uma interação prolongada, torna-se possível observar simplificações, repetições, erros, automatismos e formas sutis de influência sobre o pensamento e a escrita.

Experimentar, nesse contexto, não significa aderir de maneira incondicional. Significa construir condições para uma crítica mais precisa. A prática ajuda a evitar tanto a celebração ingênua quanto a recusa baseada apenas no medo ou no desconhecimento.

Os encontros procuram, assim, transformar a escrita com IA em objeto da própria escrita. Além de produzir textos, os participantes observam e discutem como esses textos foram produzidos, quais escolhas foram realizadas e como a mediação interferiu no resultado.

Autoria e transparência

A escrita nunca foi uma atividade inteiramente isolada. Ela sempre dependeu de linguagens, técnicas, leituras, editores, conversas, dispositivos e instituições. A inteligência artificial introduz, porém, uma diferença importante: a mediação passa a responder e a participar ativamente da organização do texto.

Quando essa participação é ocultada, reforça-se a fantasia de uma autoria pura e sem mediações. Quando o processo é assumido e documentado, torna-se possível discutir seus critérios, limites e consequências.

A transparência não resolve automaticamente todos os problemas da coescrita, mas cria condições para uma avaliação mais cuidadosa. Ela permite perguntar qual sistema participou, de que maneira participou, quais tarefas foram delegadas e quais decisões permaneceram sob responsabilidade humana.

Assumir a mediação significa

  • não apresentar a resposta do modelo como verdade automática;
  • declarar sua participação quando ela for relevante;
  • verificar dados, referências e citações;
  • explicar os critérios do processo;
  • preservar registros das decisões importantes;
  • responder integralmente pelo texto final.

Textos sobre coescrita

Duas publicações apresentam as ideias que orientam essa primeira fase dos cursos e ajudam a compreender a coescrita como prática criativa, pedagógica e reflexiva.

Coluna

Por que coescrevo com IA?

Publicado originalmente como coluna no jornal Correio, o texto parte das controvérsias contemporâneas sobre inteligência artificial e autoria para apresentar uma perspectiva baseada na experimentação e na transparência.

A coescrita é abordada como uma forma consciente de assumir a mediação técnica. Em vez de perguntar apenas se devemos ou não escrever com IA, o texto propõe outra questão: como reaprender a pensar e escrever em ambientes cada vez mais mediados por sistemas capazes de responder, sugerir e reorganizar?

Ensaio

Assumir a IA é um gesto educativo

Este ensaio aprofunda as dimensões pedagógicas, filosóficas e técnicas da coescrita. O texto discute a transferência parcial de tarefas cognitivas, os diferentes níveis de participação da IA e a necessidade de tornar visíveis as mediações presentes na produção textual.

Assumir a participação da IA é apresentado como um gesto educativo porque permite transformar o processo em objeto de aprendizagem. Documentar as interações, explicar os critérios e reconhecer as interferências do modelo ajuda a construir uma relação mais consciente com esses sistemas.

Breve histórico dos cursos

Entre 2024 e 2026, foram realizadas cinco edições dedicadas especificamente à coescrita com inteligência artificial. Cada uma incorporou novas experiências, mudanças nos modelos e questões trazidas pelos participantes.

1ª edição — 2024

Workshop: Coescrita com Inteligência Artificial
Datas: 26 e 27 de setembro de 2024
Horário: 16h às 20h
Carga horária: 8 horas
Local: Digitalia / Museu de Arte Contemporânea da Bahia — MAC Bahia

A primeira edição apresentou a coescrita como experiência prática e abriu espaço para a discussão coletiva sobre criatividade, autoria e interação com modelos de linguagem.

2ª edição — 2024

Curso: Coescrita com Inteligência Artificial
Período: 24 de outubro a 28 de novembro de 2024
Encontros: quintas-feiras
Horário: 19h15 às 21h15
Carga horária: 16 horas
Realização: Instituto Estação das Letras — online

Com maior carga horária, essa edição permitiu acompanhar processos mais longos de escrita, revisão e experimentação.

3ª edição — 2025

Curso de férias: Coescrita com Inteligência Artificial
Período: 21 a 24 de janeiro de 2025
Horário: 19h15 às 21h15
Carga horária: 8 horas
Realização: Instituto Estação das Letras — online

4ª edição — 2025

Curso: Coescrita com Inteligência Artificial
Período: 4 a 25 de setembro de 2025
Encontros: quintas-feiras
Horário: 19h15 às 21h15
Carga horária: 8 horas
Realização: Instituto Estação das Letras — online

Nessa fase, as discussões sobre engenharia de contexto, memória das conversas e responsabilidade autoral ganharam maior importância.

5ª edição — 2026

Curso: Coescrita com Inteligência Artificial
Período: 24 de fevereiro a 6 de março de 2026
Horário: 19h15 às 21h15
Carga horária: 8 horas
Realização: Instituto Estação das Letras — online

A quinta edição consolidou a coescrita como prática de autoria mediada e preparou a ampliação do percurso para a pesquisa acadêmica e a organização do conhecimento.

Um curso em permanente atualização

As diferentes edições não repetiram exatamente o mesmo programa. Cada curso procurou atualizar as práticas e reflexões de acordo com as transformações dos modelos de linguagem e com as experiências acumuladas em sala de aula.

Nas primeiras edições, o foco estava na descoberta das possibilidades de diálogo e criação textual. Posteriormente, ganharam espaço a organização do contexto, a customização das interações, a memória das conversas, o registro das versões e a análise dos efeitos cognitivos e estilísticos da coescrita.

Também se tornou cada vez mais importante discutir os limites da delegação, a dependência das plataformas, a procedência das informações, a reprodução de padrões e a necessidade de preservar espaços de hesitação, dúvida e elaboração pessoal.

Essa atualização permanente faz parte da própria proposta pedagógica. Em um campo que se transforma rapidamente, não faria sentido apresentar um método fechado. O curso procura oferecer princípios, experiências e critérios que possam continuar relevantes mesmo quando os sistemas e as interfaces forem substituídos.

Da coescrita à pesquisa e à coexistência criativa

A experiência acumulada nos cursos de coescrita abriu caminho para novas propostas. As práticas de organização do contexto, leitura crítica, revisão e registro começaram a ser aplicadas também à pesquisa acadêmica, à gestão bibliográfica e à análise de documentos.

Em uma etapa posterior, a discussão foi ampliada para a coexistência criativa com IAs. Nesse novo horizonte, a escrita passa a integrar ecossistemas pessoais formados por notas, arquivos, referências, agentes e bases de conhecimento.

A coescrita permanece como fundamento desse percurso. Foi por meio dela que se tornaram visíveis muitas das questões que continuam orientando os cursos: como preparar um contexto, dialogar com sistemas probabilísticos, reconhecer seus limites, preservar a autonomia e assumir responsabilidade pelos processos mediados.